Depois daquele adeus em silêncio traduzido por um pedido de desculpas, fiquei perambulando pelas ruas de Zaun sem rumo. O sentimento de que nunca mais veria Jayce percorria cada veia do meu corpo, mas era como uma carga elétrica permeada por espinhos que me cortavam por dentro. Uma mistura de felicidade pelo meu primeiro beijo com a quase certeza de que aquela felicidade era impossível.

A mãe de Jayce me fitou com olhos cortantes, aqueles mesmos olhares de julgamento que encontro em casa e nas ruas. Não importa por onde passo, parece que sempre desperto as piores sensações em quem me observa.

Com o passar das horas, comecei a sentir muita tontura. Perdi completamente a noção do tempo. Lembro que meu pai havia ordenado que eu voltasse pra casa antes do jantar, mas já passavam das 20h. Entrei em tantas vielas que já não sabia onde estava e, quando dei por mim, desmaiei entre dois prédios decadentes com luzes faiscando e perdendo a intensidade. A última lembrança que tenho é uma senhoraa chegando perto de mim e, por fim, meu raio de visão escureceu.

Quando acordei, já no dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi observar ao meu redor e sentar na cama onde estava descansando. Definitivamente, ali não era a minha casa. Senti um certo alívio ao pensar que não ouviria nenhuma bronca do meu pai, pelo menos por enquanto.

O ambiente era simples, a própria cama em que estava parecia ter sido improvisada do jeito que deu para me receber. Apesar da simplicidade, tudo era limpo e organizado. Isso me despertou uma certa tranquilidade e me fez esquecer o que havia sentido no dia anterior.

Ouvi o som de louças sendo lavadas no cômodo ao lado e olhei para a porta entreaberta. Pela fresta, consegui ver aquela senhora que vislumbrei antes de desmaiar. De alguma forma, ela parecia familiar. Quando comecei a pensar sobre isso, ela surgiu pela porta com um copo de água e, ao perceber que estava acordado, sorriu e disse:

- Opa, já acordou, garoto. Como você se sente? Tome aqui um pouco de água.

Peguei o copo ainda observando seu sorriso gentil e respondi:

- Obrigada, senhora. Eu acho que estou bem, mas não lembro direito o que aconteceu ontem.

- Ahhh! Eu te encontrei no meu caminho pra casa. Você estava desmaiando apoiado na bengala e na parede de um viela aqui perto. Quando percebi que cairia, fui ao seu encontro para ajudá-lo. Acabei te trazendo pra minha casa.

- Minha nossa, acabei trazendo problemas pra senhora. Desculpa pelo incômodo. Acho que é melhor eu voltar pra ca… sa.

Neste momento, senti uma leve tontura e fui amparado pela senhora.

- Fique tranquilo, garoto. Você ainda não parece tão bem. Fique aqui por mais um tempinho até que se recupere totalmente. Se quiser, posso avisar seus pais.

- Err, não, melhor não… eles vão ficar furiosos quando eu chegar em casa. Era pra eu ter chegado antes do jantar ontem à noite.

- Hmmm, mas você desmaiou, não tem culpa. Posso explicar o que houve e…

Precisei interrompê-la, porque ela não conhecia a fúria dos meus pais:

- Agradeço imensamente pela ajuda, mas não precisa. Vou ficar aqui até que eu melhore um pouco e depois terei de voltar pra enfrentá-los.

A senhora me observou com certa curiosidade e perguntou se eu estava com fome. Disse que sim, então fomos para o cômodo ao lado, a cozinha daquela pequena casinha aconchegante. Não consegui deixar de pensar que ela seria um avó fantástica, muito mais gentil do que meus pais.

- Venha, sente-se aqui. Preparei uma sopa bem nutritiva que vai te fazer bem.

Apoiado pela minha bengala, sentei na cadeira mais próxima da porta e fiquei perdido em pensamentos enquanto saboreava aquela comida quentinha e deliciosa.

Aproveitei o momento para observar ao redor. Havia várias peças de artesanato e outros materiais de criação em cima de uma mesa no cantinho da cozinha. Isso despertou meu interesse, mas, nesse momento, a senhora espantou as nuvens que flutuavam sobre mim, sentou ao meu lado e perguntou:

- Sei que posso parecer indelicada, mas o que houve com você para usar bengala mesmo sendo tão jovem?

- Imagine, não tem problema. Sei que chamo muita atenção e todo mundo acaba me perguntando sobre isso, mas geralmente só pelo olhar mesmo. Eu já nasci com essa deficiência. É uma doença progressiva que afeta meu sistema motor.

A senhora me olhou novamente com seu olhar gentil e disse:

- Entendo, não deve ser fácil. Você me faz lembrar de uma pessoa que só vi em foto e que não sei nem o nome. Falando nisso, como se chama, garoto?

- Meu nome é Viktor, e a senhora?

- Eu sou a Valerie, muito prazer. Sempre que precisar conversar, venha aqui. Sou bem sozinha e seria maravilhoso ter uma companhia como a sua. Como pode ver, sou artesã e sempre estou criando algo novo que posso compartilhar com você, se quiser.

- Posso vir mesmo? Eu também adoro criar coisas novas e vou amar trocar algumas peças artesanais com a senhora.

- Claro que sim! Sou uma pessoa simples, mas sempre tenho biscoitos, pães e sopa aqui em casa. E, claro, muitas peças sobrando para criarmos algo juntos.

Com um pequeno sorriso e uma certa esperança no olhar, respondi:

- Então, eu voltarei mais vezes.

Quando terminou de comer, voltou a se apoiar na bengala e disse:

- Bom, agora eu realmente preciso ir. Obrigada por tudo, senhora.

- Pode de me chamar de Valerie. Até logo, Viktor!

Ao se despedir com um sorriso, Viktor conseguiu encontrar o caminho para casa ainda com a sensação de que já viu aquela senhora em algum lugar. Talvez tenha visto nas ruas de Zaun mesmo e, como ela é artesã, não seria impossível trombar com ela nas lojas de antiguidades.

Quando chegou em casa, Viktor se deparou com sua mãe visivelmente irritada e gritando:

- Onde já se viu passar a noite fora de casa sem dar satisfação aos pais? Você não tem o mínimo de respeito por essa família que o sustenta. Sorte que seu pai não está em casa, porque se estivesse você levaria uma surra daquelas, moleque.

Abaixei a cabeça e respondi o de sempre:

- Desculpe, não farei mais isso.

- Acho bom mesmo. Nem quero saber o que esteve fazendo por aí. Vá para o seu quarto e arrume aquela bagunça.

- Sim, senhora.

Fui o mais rápido que pude, apesar de não precisar arrumar nada. Minha mãe nem entra no meu quarto. Ela só manda eu ir pra lá quando não quer lidar comigo. Eu sei muito bem que ela não me suporta.

Ao finalmente ficar sozinho e lúcido dos últimos acontecimentos, rebobinei a fita de cada momento que vivi com Jayce. As conversas, os toques, o abraço, o beijo. Parecia inacreditável. Era difícil de acreditar que tudo aquilo é real, mesmo que agora apenas nas minhas lembranças. Nesse momento, percorri o cordão de prata e toquei na pedra azul brilhante do colar que ganhei na tarde de ontem, refletindo em voz alta:

- Será que Jayce sente o mesmo que eu ou só estou me iludindo à toa? De qualquer forma, como vamos nos ver novamente se a mãe dele visivelmente me odeia? Pior que tudo isso é não ter meios de me comunicar com ele… quer dizer, eu poderia tentar ir até Piltover, né? Ele já veio aqui escondido e, bem, talvez eu devesse retribuir de alguma forma.

Ao ouvir a voz de Viktor, sua mãe bateu na porta com certa brutalidade:

- Moleque, você enlouqueceu de vez? Agora deu pra falar sozinho? Vá procurar o que fazer e fique em silêncio dentro desse quarto.

- Sim, senhora.

Ao sair de perto da porta, a mãe de Viktor ficou encucada com a parte em que o ouviu dizer que tentaria ir até Piltover para encontrar alguém. Como ele encontraria alguém se não tem amigos? Foi o que ela pensou e, depois de um tempo, ignorou por simplesmente não se importar muito com o filho ao dizer em voz alta:

- Esse moleque não puxou em nada pra mim, nem ao pai. Ele parece tanto com a minha mãe, aquela velha desgraçada. Até nisso ela conseguiu acabar com a minha vida.