Eu costumava ir todos os dias naquela parte da cidade em que passava o rio que levava água para todos que moravam por ali.

Havia sempre tanta gente por lá, especialmente as crianças do bairro. Não que eu tivesse amizade com alguma delas. Sempre me olhavam feio por eu ter dificuldade para andar e estar sempre de bengala. Muitos me chamavam de manco e aleijado, de forma bem pejorativa mesmo, como se tivessem raiva da minha existência. Era doloroso ouvir tudo isso calado. Sim, eu sempre ficava calado com todo tipo de insulto que ouvia. Ficava remoendo tudo antes de dormir e ao acordar.

Confesso que não tinha grandes perspectivas de vida. Meus pais, assim como aquelas crianças que brincavam perto do rio, também me olhavam com desprezo. Sei que ter problemas físicos desde o nascimento era um peso constante para eles. Lembrar disso todos os dias era a maneira que encontrei de lidar com a minha própria dor. Eu pensava “eles devem gostar pelo menos um pouquinho de mim, só não gostam da minha deficiência”.

Naquela época, eu ainda não pensava em tirar a minha própria vida. Eu só queria fugir de casa durante o dia para não ter de encarar os olhos pouco amorosos dos meus pais. Perto do rio, eu não me livrava desses olhos, mas ali eu conseguia sentir a natureza e testar meus experimentos ainda pouco científicos.

Estou tentando construir um barquinho motorizado, mas preciso de peças que não consigo encontrar de jeito nenhum.

Talvez eu precise procurar no ferro velho do bairro, mas tenho receio daquele lugar. Há uns garotos mais velhos que quase me espancaram semana passada, quando tentei buscar as tais peças que preciso. Se o dono não tivesse aparecido para afugentá-los, nem sei o que teria acontecido comigo.

Na verdade, ele não estava tentando me salvar ou coisa do tipo. Só não queria confusão perto dele. Então, eu consegui fugir usando toda a minha força física remanescente.

Nesse dia, ao chegar em casa, quase desmaiei de cansaço. Além dos problemas físicos, eu também não tenho uma saúde das melhores.

Agora, preciso reunir forças para ir ao ferro velho novamente e tentar não encontrar aqueles garotos de novo. Espero que o dono me arranje algumas peças de graça, porque os poucos trocados que tenho é para comprar o jantar.

Ao chegar nas proximidades do ferro velho, dei uma olhada geral e percebi que o caminho estava limpo. Finalmente, vou conseguir procurar essas malditas peças que eu nem sei se encontrarei aqui. Foi o que pensei.

Quando cheguei na porta do ferro velho, percebi que havia um garoto bem vestido conversando com o dono do lugar. Achei estranho, pois nunca tinha visto aquele tipo de roupa antes. Imaginei que ele fosse de Piltover. Me escondi atrás da parede com a intenção de esperar que ele fosse embora para que eu pudesse falar com o dono do ferro velho, mas tropecei em uma carcaça de motor e caí no chão. Ambos olharam em minha direção. Pensei na hora “como você é idiota, Viktor”.

O garoto, com aqueles olhos cor de mel curiosos, veio ao meu encontro para saber se eu estava bem.

- Você está bem? - ele perguntou com um olhar de preocupação.

- Sim, estou. O-brigado.

Acabei gaguejando. Sentia tanta raiva de mim por ser desajeitado, tímido e medroso. Mas, tenho a desculpa de que nunca ninguém se importou se eu estava bem nesse nível.

Depois que me levantei com a sua ajuda, o dono do ferro velho veio ao nosso encontro e me olhou da cabeça aos pés, perguntando rispidamente:

- O que diabos você veio fazer aqui de novo? Quase apanhou de uns moleques semana passada e quer passar por isso de novo?

- E… e-eu vim procurar por peças que o senhor não esteja usando.

- Você não tem um tostão no bolso, por que acha que eu lhe daria algo de graça? Cai fora daqui, seu aleijado!

Quando ele disse essas últimas palavras, eu já estava me preparando para ir embora. Porém, o garoto que me ajudou a levantar olhou para o dono do ferro velho com olhos furiosos:

- Senhor, chamar alguém de aleijado é falta de educação. Você deveria pedir desculpas.

- Até parece que eu vou pedir desculpas para esse moleque.

- Bom, se é assim, nunca mais voltarei a comprar peças aqui.

Quando o garoto disse isso, o dono do ferro velho o olhou com um olhar um pouco arrependido e disse:

- Não, que isso, tudo bem. Você tem razão mesmo. Garoto, desculpe esse velho aqui. Às vezes, eu falo sem pensar e da boca pra fora.

Olhei para os meus pés e depois para ele, sem entender o que estava acontecendo ali, e disse:

- Obrigado, senhor - virei para o garoto meio que estendendo o agradecimento a ele.

Como resposta, o garoto sorriu para mim e perguntou:

- Você disse que veio aqui procurar peças, né? Seria para quê?

- É… é que eu gosto de montar coisas e fazer alguns experimentos.

O garoto começou a me olhar com olhos ainda mais brilhantes e intensos.

- Bom, eu também estou aqui com o mesmo propósito. Acho que podemos compartilhar algumas peças, o que acha?

- Ah… isso não seria um problema para você? Digo, eu não tenho dinheiro…

- Que nada, essas peças são bem baratas. Vai ser divertido ter com quem conversar e trocar peças.

Fiquei tão atordoado com a presença dele, que simplesmente concordei com a cabeça.

Ao sairmos do ferro velho, ele me perguntou onde eu costumava fazer os experimentos e disse que levava tudo para as margens do rio. Ele me olhou com um olhar de estranhamento e perguntou:

- Você não tem um local para fazer isso em casa?

- Er, bem, não. É um pouco complicado de explicar.

- Ahh, tudo bem. Vamos lá onde seus experimentos estão para analisarmos as peças que faltam.

Acabei sendo levado por essa maré de entusiasmo que emanava do garoto. Ele tinha uma energia tão diferente. Parecia que era imbatível. Senti um pouco de inveja de sua determinação e aparente força física. Eu, perto dele, não era ninguém.

Chegando nas margens do rio, eu mostrei um cantinho rochoso que usava como “ateliê científico”. Era bem escondido. Acho que ninguém nunca deve ter ido ali. Ele olhou tudo com surpresa, mas não demonstrou nojo ou irritação por estar em um lugar como aquele.

Eu mostrei meu barquinho motorizado para ele, explicando cada mecanismo e peças que havia escolhido. Do nada, fiquei animado por ter alguém com quem conversar sobre a minha invenção fajuta. Quando terminei de explicar, ele pegou nos meus ombros e falou:

- Minha nossa, isso aqui é incrível. Eu ainda estou bem no início de um carrinho com controle remoto, mas já consigo imaginar tantas possibilidades só de olhar para o seu barco. Sério, uau! Posso pegar nele?

- Ah, s-sim, claro.

Ele pegou o meu barquinho e o olhou de todos os ângulos, como se quisesse registrar cada detalhe com suas íris cor de mel. Eu ainda estava um pouco tonto com o excesso de informação daquela manhã de sábado, mas estava feliz. Fazia tempo que não me sentia assim.

Durante meus devaneios, o garoto olhou para mim sorrindo e perguntou:

- Qual o seu nome?

- Viktor.

- Legal, Viktor. Eu sou Jayce. Costumo vir aqui escondido dos meus pais depois de um curso que faço aos sábados. É meu único dia livre, então espero te encontrar na próxima semana. Vou deixar algumas peças para você usar no seu barquinho e vou trazer a minha invenção quando eu voltar.

Pensei em responder alguma coisa, mas só consegui concordar com a cabeça e desvencilhar meus olhos dos olhos dele.

- Bom, preciso ir agora, Viktor. Semana que vem, no mesmo horário, eu te encontro aqui, combinado?

- C-combinado.

- Então, até lá!

Jayce saiu correndo pela entrada rochosa do meu esconderijo e só consegui fechar meus olhos para tentar entender o que tinha acabado de acontecer.

Será que eu ganhei um amigo? Será que posso confiar nele? Será que ele vai mesmo voltar aqui na semana que vem?

Eram tantas perguntas sem respostas que precisei abrir os olhos novamente, esconder tudo e sair para comprar o jantar que minha mãe havia pedido para levar na volta para casa.