Foi uma semana de muita ansiedade. Nunca demorou tanto para chegar no sábado. Todos os dias foram morosos, como se o tempo tivesse passado mais devagar de propósito.

Fiquei pensando “será que finalmente ganhei um amigo?” Impossível não pensar nisso depois do que aconteceu semana passada.

Jayce nem ligou para a minha deficiência. Não fez a ressonância visual que todos fazem ao me verem pela primeira vez. Isso me deixou feliz, mas ao mesmo tempo atordoado sem entender o comportamento dele.

Imagine uma pessoa não reparar na minha perna inconstante e na bengala que carrego para todo lado. Todos reparam, todos me perfuram com olhares julgadores. Eu sinto, eu vejo, mesmo não querendo sentir e ver.

Jayce disse que voltaria aqui no próximo sábado, também conhecido como hoje, mas ainda é cedo para ele aparecer. Ele disse que voltaria no mesmo horário em que estivemos aqui no meu “ateliê científico” semana passada. Ainda faltam algumas horas. Preciso fazer algo para passar o tempo.

Resolvi organizar as peças que poderia trocar com Jayce. Até separei algumas que talvez sejam úteis para o carrinho de controle remoto. Ele disse que ainda estava no começo, então acho que não serei intrometido ao dar algumas ideias.

O tempo passou, o horário combinado também. Fiquei ali por mais algumas horas. Afinal, vai que ele aparece um pouco depois. Pode ser apenas um atraso ou algo do tipo.

A noite chegou. Jayce não apareceu. Eu me senti péssimo e um tanto idiota por ter acreditado que ele voltaria. Provavelmente, deve ter esquecido. Até parece que ele lembraria de algo tão insignificante.

Na volta para casa, fiquei pensando em mil formas de esquecer tudo isso. Precisava voltar aos eixos. Não costumo ficar ansioso, não quero sentir mais isso. Melhor ir dormir para esfriar a cabeça e o coração.

Domingo estava bem frio e chuvoso. Eu detestava esse clima, pois andar era ainda mais difícil. Sentia mais dores no joelho e, para completar, era mais difícil de usar a bengala quando o tempo estava assim.

De qualquer forma, resolvi ir ao meu esconderijo. Em casa, eu não tinha paz. Lá, pelo menos eu poderia me dedicar aos meus experimentos.

Quando entrei, dei de cara com Jayce todo molhado tentando se secar com uma toalha velha que eu havia deixado em cima da bancada rochosa. Como sempre faço barulho por onde passo, não entrei despercebido.

- Viktor! Desculpe por ter invadido seu ateliê. Eu precisava vir aqui de qualquer jeito, mesmo que fosse debaixo de chuva.

- Você está todo molhado, Jayce.

- Sim, o tempo estava até que bom quando saí de casa. Não olhei a previsão do tempo e nem trouxe guarda-chuva.

Nesse meio tempo, fui buscar uma outra toalha que havia guardado nos fundos do esconderijo. Aquela que ele usou estava em um estado deplorável.

- Pode usar esta toalha aqui.

- Nossa, obrigado. Parece que toda chuva do mundo caiu sobre mim.

Aproveitei para sentar em um dos assentos de pedra e olhei para os meus pés, sem saber o que dizer ou pensar. Já tinha colocado na cabeça que essa amizade não iria para frente.

- Viktor, antes de mais nada, desculpe por não ter aparecido ontem. Acabei tendo problemas na hora que estava vindo para cá. Minha mãe é superprotetora… ela, bem, não gosta que eu venha para cá.

- Eu entendo, Jayce.

É claro que eu entendo. Afinal, Zaun não parece ser o lugar ideal para alguém que parece ter um certo prestígio e uma boa família como ele.

- Viktor, posso te fazer uma pergunta?

Inevitavelmente, olhei para os olhos dele e afirmei que sim.

- O que aconteceu com a sua perna? Se preferir, não precisa responder, claro.

Em algum momento, ele perguntaria isso. Jayce parece muito curioso com tudo ao seu redor. Preciso dizer alguma coisa.

- Ahh, isso. Bem, e-eu já nasci com essa deficiência. É uma doença progressiva que afeta meu sistema motor.

- Sinto muito por isso, Viktor. Porém, vejo que você usa uma espécie de apoio metálico na perna para ajudá-lo a se locomover melhor, não é mesmo?

Jayce estava olhando fixamente para a minha perna com apoios metálicos.

- Sim, eu criei isso para mim.

- É sério? Viktor, isso é realmente incrível. Posso dar uma olhada mais de perto?

- S-sim, mas não é nada incrível.

- É incrível, sim! Veja essas ligações e conectores que facilitam a mobilidade. Sério, não vejo ninguém usando algo assim em Piltover.

- Há muitas pessoas como eu em Piltover?

- Como assim? Você quer dizer pessoas com deficiência física? Sim, já vi algumas. Porém, nunca vi nenhuma tão inteligente como você.

Fiquei com vergonha, lógico. Não sabia como reagir a isso. Minha deficiência sempre chamava mais a atenção do que qualquer outra característica dentro ou fora de mim. Ninguém nunca me chamou de inteligente.

- Ah! Eu consegui trazer algumas peças para o seu barquinho, deixa eu pegar aqui na minha mochila.

Jayce começou a retirar algumas peças de dentro da mochila. Nesse momento, reparei na pulseira de couro em seu pulso. Havia uma pedra azul com brilho intenso bem no centro. Nunca vi nada do tipo. Não consegui tirar os olhos dela.

Jayce, com toda a sua perspicácia, reparou na direção dos meus olhos e disse:

- É incrível, né? Um dia eu vou te contar a história por trás dessa pedra mágica.

- Mágica?

- Sim. Você acredita em magia, Viktor?

- Bom, eu acredito na ciência. Talvez exista uma certa magia nisso, não sei.

- Gosto da sua forma de ver as coisas, Viktor. Bom, aqui estão as peças. O que acha delas?

- Elas são perfeitas. Como conseguiu deduzir que eu precisava exatamente dessas aqui?

- Oras, eu observei muito o seu barquinho no sábado passado. Tenho um olhar clínico para essas coisas.

- Também tenho algumas peças para você.

Nesse momento, Jayce observou cada uma das peças que separei para ele com aqueles olhos brilhantes cor de mel e, pegando nos meus ombros, ele disse:

- Uau! Elas vão me ajudar a terminar a placa do carrinho. Obrigado, Viktor!

Jayce sempre consegue me deixar constrangido, impressionante. Mas, pelo menos consegui pegar o barquinho e começamos a mexer nas engrenagens metálicas.

O tempo passou rápido. Parece que as horas voam quando a felicidade se faz presente. Já era quase noite quando Jayce virou para mim:

- Infelizmente, preciso ir para casa. Daqui a pouco a minha mãe vai colocar a polícia de Piltover atrás de mim.

Sabia que tínhamos pouco tempo restante. Então, reuni toda a minha coragem que nem imaginava que tinha e perguntei:

- Jayce, posso te fazer uma pergunta antes de você ir?

- Claro, Viktor.

- N-nós podemos ser amigos?

Mais uma vez, Jayce foi ao meu encontro, apoiou suas mãos em meus ombros e, olhando fixamente para mim, disse:

- Por algum motivo que não sei explicar, sinto que somos amigos há muito tempo.

- E-eu também sinto isso.

- Agora eu preciso ir mesmo. Te vejo no próximo sábado. Dessa vez, darei todos os jeitos para vir e chegar no horário combinado.

- Certo, estarei esperando. Ahhh, leve o meu guarda-chuva para não se molhar tanto na volta.

- Obrigado, Viktor!

Fiquei olhando o Jayce partir correndo no meio da chuva naquele fim de tarde com céu cor de laranja.

Percebi que estava sorrindo sozinho depois de muitos anos. Sim, eu estava me sentindo feliz por ter feito um amigo de verdade. Não era a minha imaginação me pregando peças. Era real.

Nessas horas, eu queria conseguir correr para sentir a brisa do vento no meu corpo. Então, eu fechei os olhos e me imaginei correndo. Foi o suficiente para desejar que o tempo passe rápido até o próximo sábado.