Fiquei a semana inteira pensando no que o Viktor me perguntou sábado passado. "N-nós podemos ser amigos?", com aquela leve insegurança na voz, me fez pensar na minha resposta também.

Eu realmente sinto que já o conheço há muito tempo. Tivemos uma conexão imediata desde a primeira vez que nos vimos. Gostamos de ciência e isso facilitou a nossa aproximação, mas parece que é uma amizade transcendental. Não sei, talvez eu esteja divagando demais.

Hoje é sexta-feira e, bem, eu deveria ter me concentrado na aula, mas simplesmente não consegui. O professor chamou a minha atenção duas vezes. Não costumo ser assim, distraído, mas confesso que minha mente estava bem longe dali.

Ao voltar pra casa, minha mãe logo percebeu que eu não estava nos eixos.

- O que aconteceu, filho? Você parece tão distante.

- Nada, mãe. Estou no meio de um projeto e não consigo achar as respostas certas.

- Jayce, eu já falei pra você controlar esse perfeccionismo. Você nem tem idade pra isso.

- Tá tudo bem mesmo, mãe. Vou para o quarto estudar um pouco.

- Hmmmm, tô de olho em você!

Minha mãe sempre percebe minhas mudanças de humor. É difícil disfarçar quando estou fora de mim. Falei que precisava estudar, mas isso foi apenas uma desculpa. O que eu quero mesmo é tentar finalizar os ajustes do carrinho pra mostrar ao Viktor amanhã. As peças dele foram fundamentais pra desenvolver um motor mais potente. Queria fazer ele voar, mas ainda não tenho os mecanismos pra isso.

Depois de um tempo isolado no quarto, totalmente distraído com a minha invenção, fui até o escritório do professor Heimerdinger. Precisava conversar com alguém diferente. Bati em sua porta e ouvi um convite alegre:

- Pode entrar, Jayce.

- Como você sabe que sou eu?

- Oras, só você me visita batendo na porta com tanto entusiasmo.

- É sério? Achei que você recebesse visitas constantes por aqui.

- Esse tempo já passou, pequeno Jayce. Hoje, as pessoas têm uma certa preguiça ou medo de mim, não sei. Ter vivido muito tem dessas coisas.

- Hmm, eu não entendo bem isso, mas acho você incrível e, por isso, vim aqui pra te fazer algumas perguntas.

- Imaginei que tivesse vindo para isso, conte-me mais.

- Então, eu conheci uma pessoa com a mesma idade que eu, que também é aspirante a cientista. Na verdade, eu nem sei a idade certa dele, mas isso não importa. Ele tá criando um barquinho motorizado e trocamos peças, como estas aqui.

Mostrei as peças pra ele, empolgado com o que ele tinha a me dizer, mas recebi duas sobrancelhas levantadas em troca:

- Jayce, onde você conheceu esse garoto?

- Errr... em Zaun.

- Jayce, você sabe que não deve ir até lá. Você foi com quem?

- Fui sozinho, depois da aula de sábado.

- Sua mãe sabe disso?

- Não, não sabe e nem pode saber. Por favor, não conte pra ela, professor Heimerdinger.

- Claro que não vou contar, mas você precisa prometer que não voltará mais lá. Zaun é lugar muito perigoso pra uma criança.

- Não sou mais criança! Fora que Viktor tem a mesma idade que eu e vive lá, por que eu não posso visitá-lo?

- Jayce, as coisas não são tão simples como você pensa.

Fiquei chateado, porque não era isso que esperava ouvir. Queria que ele me entendesse e apoiasse essa amizade, ainda mais por envolver uma conexão científica.

- Olha, sei que é chato ouvir isso, mas é para o seu próprio bem. Piltover e Zaun são ambientes muito diferentes. Quem vive lá, não consegue viver aqui e vice-versa.

- O Viktor é uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, professor. Acabar com essa amizade seria...

- Não quero acabar com a sua amizade, mas vocês vivem em mundos diferentes. Ele talvez até já saiba disso. As peças de Zaun são realmente... inovadoras. Fico até surpreso ao me deparar com tanta tecnologia. Parece que eles souberam se virar do jeito deles.

O professor ficou observando as peças e fazendo algumas sugestões de melhorias no meu carrinho, mas é claro que eu já não estava mais ali no escritório dele. Acho que estraguei tudo ao ser sincero com o professor Heimerdinger. Eu e minha boca enorme fazendo mais um estrago.

- Professor, eu preciso ir agora. Obrigado pelas sugestões.

- Volte sempre, Jayce. E, lembre-se, você tem um futuro brilhante pela frente. Nunca se esqueça disso.

No caminho pra casa, as palavras do professor Heimerdinger dominaram os meus pensamentos. "Você tem um futuro brilhante pela frente, nunca se esqueça disso". Me sinto pressionado a atingir as expectativas dele e da minha família, mas ao mesmo tempo me irrita pensar que o Viktor também teria um grande futuro se morasse em Piltover.

Fico imaginando as oportunidades que ele teria se estudasse no mesmo colégio que eu, se pudesse conversar com professores e cientistas pra aprender ainda mais. Talvez eu esteja exagerando, mas sinto que ele gostaria de viver em um ambiente assim. Acho que vou perguntar ao Viktor sobre isso amanhã. Sim, eu vou continuar frequentando Zaun escondido, pelo menos até o dia em que minha mãe descobrir.

Sábado finalmente chegou, dia de rever o Viktor em Zaun. Mais uma vez, consegui fugir do curso despercebido, mas é sempre um desafio sair na hora com o professor enrolando até os últimos segundos e meus colegas falando sem parar.

Chegando lá, Viktor estava distraído olhando para uma pequena engrenagem em formato redondo. Parecia um tanto antiga, mas os olhos dele brilhavam enquanto percorriam a peça de metal. Confesso que eu estava um pouco mais contido do que o normal.

- Oi, Viktor. Desculpe pelo atraso de novo.

- Ah! O-oi, Jayce. Que nada, fico feliz em te ver por aqui.

- O que é isso na sua mão?

- É só uma engrenagem que achei por aí. Apesar de insignificante, eu gostei dela na hora em que bati os olhos nela.

- Hmmmm, posso tocar também?

Viktor colocou a engrenagem na minha mão e, por um segundo, eu lembrei daquele ser mágico que salvou a minha vida durante uma nevasca que enfrentei com a minha mãe ano passado. Fiquei um pouco tonto e, acidentalmente, deixei a peça cair no chão.

- Tá tudo bem, Jayce?

- Ah, desculpe. Fiquei a semana toda distraído, desculpe mesmo.

Nesse momento, abaixei pra pegar a engrenagem e devolvi para o Viktor, que me olhava com uma certa preocupação.

- Bom, vamos voltar às nossas invenções? Eu trouxe algumas peças novas na minha mochila. Conversei com um professor, que é cientista lá em Piltover, e ele me deu várias ideias pra avançar no carrinho que também podem ser usadas no barco.

Ficamos ali, conversando e rindo por horas. Nossos sábados se tornaram especiais não só pelas trocas científicas, mas também por esses momentos que compartilhávamos juntos. Conversa vai, conversa vem, Viktor acabou me fazendo a pergunta que eu queria ouvir:

- Jayce, como é a vida em Piltover?

- Olha, não vou mentir. Lá é ótimo. Há boas escolas e professores realmente dispostos a ensinar. O ar é puro, a cidade é limpa e, bem, não vemos pessoas em situação de rua como aqui.

- Entendo... parece bem diferente. Nós realmente vivemos em mundo opostos...

Quando Viktor disse isso, ele baixou a cabeça e voltou a mexer naquela engrenagem de forma distante. Isso me deixou angustiado.

- Sim e não. Você é uma pessoa incrível, Viktor. Eu sei que Zaun é um lugar complicado e bem diferente de Piltover, mas isso não apaga o fato de que você existe e precisa ser visto por mais pessoas.

- Como assim ser visto? Eu não seria aceito em Piltover... já não sou aceito aqui, imagine em uma cidade ainda mais exigente.

- As pessoas realmente são preconceituosas em todos os lugares, não importa a origem. Mas, em Piltover, você teria mais oportunidades pra mostrar os seus talentos ao mundo.

- E-eu não sou tão especial assim, Jayce.

- É, sim! Eu sou seu amigo e vejo muito potencial em você. Gostaria de poder fazer mais...

- Não precisa, tá tudo bem. Já fico feliz por ser seu amigo. De verdade.

Fiquei olhando nos olhos dele por alguns momentos, mas ele desviou o olhar. Acho que fui longe demais. O que eu poderia fazer por ele? Sou apenas um pré-adolescente, não tenho meios pra tirá-lo daqui. Quem eu penso que sou?

- Desculpe por me intrometer tanto, Viktor. Eu sempre falo demais. Acho que você já deve ter percebido esse meu defeito.

- Não acho que seja um defeito. Aprendo muito com você, justamente por ser tão diferente de mim.

Nesse momento, ele voltou a me encarar e deu um leve sorriso pra mim. Fiquei feliz e, de maneira espontânea, segurei as mãos dele e falei:

- Viktor, eu queria conhecer um pouco mais sobre Zaun e sobre você. Será que poderia me levar pra dar uma volta no próximo sábado? Eu só conheço aquele ferro velho em que nos vimos pela primeira vez.

- C-claro, eu te levo, mas saiba que teremos de andar um pouco devagar...

Viktor disse isso enquanto olhava para sua perna e bengala, com aquela expressão de quem se sente um incômodo.

- Que nada! Isso será bom pra eu conhecer cada detalhe da cidade.

- Certo, vou te mostrar o que eu conheço. Confesso que não sou desbravador e corajoso como você, mas farei o possível.

- Então, tá combinado! Agora eu preciso ir, já tá de noite. O tempo passa muito rápido quando estamos aqui no seu ateliê.

- É, o tempo passa rápido mesmo, especialmente quando a gente se diverte.

- Sim, obrigado por tornar meus sábados mais divertidos, Viktor.

- Até semana que vem, Jayce.

Pra variar, saí correndo pra chegar a tempo no elevador que liga Zaun a Piltover. O "segurança" sempre me olhava desconfiado, como se soubesse que eu não deveria estar ali. Mas, eu fingia que estava tudo bem, dava tchau e seguia em frente. Todo sábado era assim.

Felizmente, cheguei em casa antes do jantar e minha mãe ficou feliz em me ver mais animado. Mais uma vez, ela não desconfiou de nada.