Todos os dias, às 8h, meus olhos encontravam o reflexo do seu olhar pela janela do ônibus. Pegávamos sempre a mesma linha, no mesmo horário. Você parecia triste, perdido em seus pensamentos.
Queria saber o que costumava ouvir em seus fones de forma tão imersa. Via um outro mundo transbordando por suas linhas cravadas no vidro temperado da janela.
Quando eu entrava no ônibus, você já estava lá. Queria ter tido a chance de ver seus olhos procurando um lugar para sentar. Nunca o vi se levantar. Você descia em alguma parada depois da minha.
Houve dias em que você estava na companhia de um livro. Seus olhos percorriam as páginas com tanta intensidade. Era um tom castanho claro, que brilhava no encontro com a luz do sol.
Queria ter tido a chance de saber se a música que ouvia embalava a sua leitura, assim como a sua presença inebriava a minha jornada diária ao trabalho.
Em dias chuvosos, você costumava ficar sem fones de ouvido. Acho que a chuva era o único som que gostava de ouvir. Observava seus olhos percorrendo as gotas que deslizavam pela janela em busca de salvação. Será que você se sentia como elas?
Uma vez, uma senhora puxou conversa com você e pude ouvir a sua voz. Era um tom firme, ao mesmo tempo que calmo e envolvente. Naquele momento, queria ser aquela mulher. Ela viu o seu sorriso percorrendo o tempo até alcançar os olhos dela.
Queria ter tido a chance de receber um sorriso seu e sorrir de volta, como uma troca de sentimentos que flui como o vento.
Será que você chegou a notar a minha presença naquele ônibus? Nossos olhos nunca se encontraram diretamente. Tudo o que sei é sob perspectiva ou por reflexo.
Nunca mais o vi. Talvez tenha se mudado, trocado de emprego ou se cansado do ônibus e trocado por outro tipo de transporte. São tantas possibilidades.
No fim, não tive coragem de puxar conversa. Nem sei o seu nome. Desconheço o caminho que percorria. Não faço ideia onde você mora. Só sei que você permanece dentro de mim, como se isso fosse a resposta para todas as minhas dúvidas.
Leia a perspectiva "pelos olhos dele".